Acta Media: Perspectiva Histórica
O primeiro evento intitulado Acta Media foi um Ciclo de Atualização em Cultura Mediática que aconteceu em Maio de 2002, na Escola de Comunicações e Artes da USP, numa iniciativa do Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo. O ciclo anunciava-se nos seguintes termos: “Uma série de palestras com profissionais de diversas áreas de produção em Comunicações, selecionadas com base na excelência do trabalho do autor e nas inovações apresentadas na concepção e na linguagem."
O artista multimídia Otávio Donasci inaugurou o evento, com "Expedições Multimídias, Eventos Interativos" apresentando suas principais criações, vídeo-criaturas e vídeo-instalações, que povoaram e integraram diversos eventos de publicidade e relações públicas; o diretor e produtor de vídeos empresariais Rudi Anker, da Imagem Assessoria em Áudio Visual, discutiu a possível conexão "Videografia e Turismo", projetando as "Cidades Destino da Varig", série gravada em diversas cidades do mundo, produzida especialmente para exibição nos vôos da companhia aérea com destino internacional; Roger Tavares, artista e pesquisador de novas tecnologias, conceituou e mostrou "Seres Numéricos na Mídia Interativa", exibindo surpreendentes personagens modelados digitalmente, humanóides que ao simularem comportamentos humanos podem assumir papéis antes restritos apenas a seres vivos. As palestras foram vivamente recebidas revelando que havia um público, especialmente na USP, disposto e preparado a ouvir, absorver, compreender e discutir apresentações neste domínio emergente do conhecimento.
O conceito e impulso de realização do segundo Simpósio Acta Media, na Universidade de São Paulo em 2003, resultaram da convergência de vários fatores. Foi decisiva a integração com membros da ISEA (International Society of Electronic Artists) a partir de participação como palestrante em simpósios, em Chicago (1997), Manchester (1998), Paris (2000) e no Simpósio Ourai ISEA-2002, realizado em Nagoya no Japão.
Em Nagoya, a reunião do Comitê de Diversidade Cultural da Sociedade ISEA, congregou um número muito maior de pesquisadores do que a reunião anterior em Paris, ampliando consideravelmente a participação de países chamados periféricos e a representação de continentes reforçando o conceito de diversidade. Nesta ocasião fui indicado para tornar-me um dos coordenadores deste comitê, cargo que mantive até 2004.
Durante a reunião, em Nagoya, apresentei a sugestão de produzir em São Paulo e em outras cidades brasileiras uma série de atividades co-organizadas com a Sociedade ISEA incluindo a realização de seminários e eventualmente de um Simpósio ISEA num futuro próximo, algo que ainda pretendo concretizar. As sugestões foram muito bem recebidas, resultando em aproximações e contatos com diversos pesquisadores do mundo todo que se prontificaram a participar e a colaborar.
Retornei a São Paulo, com a firme determinação de colaborar em atividades do ISEA e ao mesmo tempo de incluir a USP, a cidade de São Paulo e gradualmente outras cidades brasileiras, no circuito internacional de simpósios e de atividades em Arte, Comunicação e Cultura Digital. Retomei contatos com diversas instituições que haviam demonstrado interesse nestas áreas de pesquisa, relatando os resultados positivos de minha viagem ao Japão e informando meuspropósitos e a receptividade de membros do ISEA de colaborarem com eventos a serem realizados em São Paulo.
Nesta época, em São Paulo, o FILE já alcançava notoriedade, ainda que ninguém poderia prever que logo se tornaria uma referência mundial nas artes digitais, tornando a cidade um centro irradiador neste domínio, do mesmo modo que a Bienal o fizera, na década de 50, no campo das artes plásticas. Participando do FILE, como membro do júri de seleção de trabalhos, recepcionando convidados internacionais e ministrando palestras, fui tomando contato com a difícil tarefa de gerenciar simpósios internacionais.
No primeiro semestre de 2003, iniciei planos para a realização de um simpósio internacional na Universidade de São Paulo. Retomei contatos com o artista e professor Sylvio Coutinho, do setor de Arte Educação do Museu de Arte Contemporânea da USP e mencionei meus planos. Discutíamos há muito a necessidade de o Museu integrar-se ao crescente movimento de arte e tecnologia. Sylvio me estimulava a desenvolver um projeto de um laboratório computacional que pudesse lançar o MAC no século XXI, integrando-o às novas modalidades artísticas que interrelacionam arte, ciência e tecnologia.
“The symposium as a medium” foi o tema que eu propus aos meus interlocutores internacionais para este simpósio, uma proposição de natureza auto-reflexiva. A pesquisadora de origem húngara, mas residente em Toronto, Nina Czegledy, então presidente do ISEA, já havia concordado em participar com a palestra "Arte, ciência e tecnologia: praticas colaborativas" ("Art, Science and Technology: Collaborative Practices"). Outros pesquisadores, tais como Beryl Graham, Norman White e Mark Tribe, também preparavam seus resumos e confirmavam sua participação.
Por sugestão de Sylvio Coutinho, do setor de educação do MAC-USP, decidimos adicionar palestrantes brasileiros ao grupo de estrangeiros convidados, visando uma integração intercultural, uma confrontação de conceitos e idéias, uma valorização mútua, e um encontro gerador de intercâmbios. Esta orientação foi decisiva para que o simpósio pudesse realmente se concretizar, para que o projeto se conectasse à realidade e se tornasse viável.
Naquele momento, no entanto, não foi possível, concretizar o projeto de trazer, um grande grupo e pesquisadores estrangeiros ao Brasil. As verbas necessárias não se tornaram disponíveis a tempo e o núcleo coordenador decidiu cancelar os convites. Confirmaram sua participação, no entanto, o arquiteto e teórico Peter Anders e o poeta digital e pesquisador Chris Funkhouser, ambos americanos. Nosso núcleo também propôs uma diferente denominação: "Acta Media - Simpósio Internacional de Artemídia e Cultura Digital".
A interlocução e a receptividade de Sylvio Coutinho e da então diretora do Museu, professora Alza Ajzemberg foram decisivas para que o evento se conectasse ao MAC, e posteriormente, ao Programa Interunidades de Pós-graduação em Estética e História da Arte. Colaboraram ainda, na preparação, divulgação e organização, Manlio de Medeiros Speranzini, então mestrando no PGEHA e Ligia Silva, artista plástica e professora de arte do ensino médio. Além disso o professor Sylvio Coutinho teve especial participação, como o principal responsável pela concepção e aplicação da avaliação particularizada de cada palestra e do simpósio como um todo.
Deste modo, o Acta Media II, um Simpósio Internacional de Artemídia e Cultura Digital, ocorreu de 9 de agosto a 27 de setembro de 2003, no auditório do Museu de Arte Contemporânea da USP, na Cidade Universitária, São Paulo. As palestras foram programadas para os sábados, no período matutino. Os textos, enviados pelos palestrantes, foram diagramados, impressos e distribuídos antes de cada palestra.
A inauguração ocorreu no dia 9 de agosto, apesar dos imprevistos. Assim que chegamos, fomos informados da falta de luz no Museu. Todos foram orientados e encaminhados para o MAC anexo, um espaço do outro lado da rua, menor mas com amplas janelas, permitindo iluminação natural. Nestas condições, apresentei o programa, os palestrantes e os temas a serem discutidos. Primeiramente, os participantes tomaram contato com o texto: "Relações possíveis entre arte e cultura digital", programático do simpósio:
"Este Simpósio tem o propósito de:
1. informar, renovar e questionar o meio artístico e cultural brasileiro, abordando questões fundamentais sobre possibilidades da arte contemporânea e formas alternativas de comunicação na emergente cultura digital do Brasil;
2. criar condições para a formação de novas políticas culturais em museus, universidades e instituições culturais brasileiras, que enfrentam os desafios de integrar a criatividade em atividades de comunicação digital;
3. possibilitar através destas novas políticas uma evolução constante das formas culturais e das formas de distribuição do capital cultural, criando condições para a emergência de novos paradigmas, e de uma renovada produção, não apenas estética, mas também comunicacional, científica e tecnológica.
Propomo-nos deste modo a levantar, discutir e eventualmente responder a uma série de questões fundamentais:
1. como as manifestações artísticas vão se atualizar numa cultura crescentemente digital que interroga os paradigmas dominantes de nossa sociedade atual, em suas ordenações mais primárias, em relação à criação de sentido, significado, valor, informação e inovação?
2. quais valores da criação artística serão mantidos e quais ultrapassados na nova ordem emergente da cultura digital? Em conseqüência, quais os novos valores que emergirão?
3. como a criação estética pode se aliar e interagir com a criação comunicacional, tecnológica e científica?
4. quais instituições, estruturas, recursos e profissionais serão necessários para se instaurar formas emergentes de criação cultural que integrem arte, comunicação, ciência e tecnologia?
A resposta a essas questões deve implicar uma renovação radical de nossos paradigmas, de nossas bases teóricas de sustentação, de nossas formas dominantes e habituais de pensamento e expressão. Este processo exigirá novos processos, novas metodologias e um reordenamento disciplinar do conhecimento, das formas de se gerar, de se entender e de se produzir não apenas arte mas também ciência, tecnologia, religião, sociabilidade e inclusão, de modo a ampliar condições de inovação e evolução.
Este simpósio pretende ser um primeiro passo para que estas questões, após serem levantadas, possam ser formuladas, reformuladas, problematizadas, fundamentadas e lentamente respondidas, produzindo efeitos gradativos na cultura e em nossas instituições. Desta forma se estará valorizando, distribuindo e incentivando não apenas a criação estética, mas também a ciência, a tecnologia, a inovação cultural, a cidadania, a inclusão social e digital.”
A palestra que viria a seguir, Processos Criativos em Artemídia, tive de apresentá-la apenas verbalmente devido a falta de eletricidade. Deste modo, o simpósio foi iniciado, de uma maneira um tanto improvisada e informal. A movimentação colaborou, de algum modo, para um clima de comunhão e de companheirismo entre os participantes, os organizadores e os funcionários do Museu. Ao final da manhã, com o retorno da energia elétrica, a palestra foi terminada com a exibição do Power Point, permitindo melhor absorção de conteúdos.
No sábado seguinte, apresentaram-se Wilton de Azevedo, da Universidade Mackenzie, com A Intermediaridade Interpoética e Chris Funkhouser, do "New Jersey Institute of Technology" que discorreu sobre Os Meios Digitais e a Poesia Cibertextual.
Na sessão seguinte, apresentou-se primeiramente o professor Peter Anders, especializado em arquitetura virtual e cíbrida, ministrando a palestra Lugares da Mente: implicações do espaço narrativo para a arquitetura dos sistemas de informação. A palestra, apresentada em inglês, como “Places of mind: Narrative Space for Digital Architecture”, foi traduzida sequencialmente. Peter Anders entusiasmou a platéia ao apresentar a teorização de uma arquitetura cíbrida, congregando o real e o virtual, com ilustrações de excelente qualidade, que facilitaram a absorção de conceitos complexos e inéditos.
A programação deste sábado 23 de agosto foi completada pela apresentação em português do Manifesto Mediamático, de minha autoria, uma experiência de escrita hibrida homem-máquina. Nesta proposição, subprogramas computacionais, chamados de "máquinas de desescritura", alteram palavras propostas por um agente humano. Em seguida, este agente seleciona e absorve as palavras que julga apropriadas para seu discurso completando deste modo um processo escritural híbrido. A apresentação, previamente animada em Power Point por Manlio de Medeiros Speranzini, proporcionou uma rara exibição de textos em movimento e transformação, algo que o texto impresso não pode simular ou reproduzir.
No sábado seguinte, 30 de agosto, Paula Perissinoto e Ricardo Barreto apresentaram uma Retrospectiva do FILE 2001-2003. Paula Perissinoto discorreu sobre a ampla receptividade do simpósio FILE, relatando suas experiências pessoais como organizadora e divulgadora de um dos mais reconhecidos eventos brasileiros na área de mídias digitais. Ricardo Barreto apresentou a questão digital a partir de uma perspectiva inovadora, ressaltando a interdisciplinaridade do tema, integrando história da arte contemporânea, comunicação, filosofia da ciência, ciências biológicas e teoria social. O professor doutor Eugênio Trivinho, do Programa de Comunicação e Semiótica da PUC-SP, completou a sessão com Cibercultura: terror e morte simbólica, conduzindo-nos por uma surpreendente paisagem teórica, histórica e contemporânea.
No sábado, 13 de setembro, Lucia Leão apresentou Net Art e Corpos Biocibernéticos discorrendo sobre a complexa questão da vida artificial manifestando-se em sistemas rizomáticos. Em seguida, Rogério da Costa interrelacionou Inteligência Coletiva e Cultura Digital. Ao final, ambos os professores responderam as diversas perguntas do público e dialogaram entre si, ensejando um excelente intercâmbio.
No sábado seguinte, Lúcio Agra, discorreu sobre Performance e Tecnologia: uma Genealogia Monstruosa, apresentando sua perspectiva sobre a evolução da existência mediáticas dos ciberorganismos. Em seguida, Jane de Almeida propôs em Interatividades uma visão original sobre o tema, enfocando-o na perspectiva da psicanálise.
Na sessão seguinte, 27 de setembro, Cícero Inácio da Silva apresentou Hipermídia e Subjetividades, levantando uma discussão acerca da autoria, da escrita autorada por sistemas computacionais, da utilização de nomes próprios em textos escritos por processos automatizados, do direito autoral de substantivos nominais, propondo deste modo um projeto polêmico que utiliza contradições e paradoxos na filosofia do direito autoral no momento em que a rede computacional revoluciona os modos de produção textuais.
Completando a programação, Yara Rondon Guasque Araujo, apresentou "Máquina imersiva, máquina social: imersão e entorno computacional". O conteúdo apresentado enfoca segundo a própria autora: “a sociedade, as organizações que criamos, as redes comunicacionais e as estruturas imersivas da arte, como um mesmo aparato complexo. Esse aparato serve de auxílio para as funções cognitivas do cérebro, ao mesmo tempo que exerce uma ação modeladora sobre os indivíduos. Nessa proposição inexiste diferença entre ser maquínico e ser humano. A sociedade e a arte, como estruturas imersivas externas ao cérebro, constituem as máquinas sociais que inserem os indivíduos como parte constituinte de seu sistema pelo desejo.”
Como se pode depreender, muitos dos participantes do Acta Media II, que não foi editado em livro, retornaram no Acta Media III e deste modo comparecem como autores nesta publicação: Yara Rondon Guasque Araujo, Cícero Inácio da Silva, Lúcio Agra, Lucia Leão, Eugênio Trivinho. Além disso, Otavio Donasci palestrante na primeira edição do Acta Media também retorna nesta terceira edição do evento. Esta participação retomada revela que tanto os simpósios como os livros emergem de uma comunidade de reflexão e pensamento.
Em 2005, foi realizado o Acta Media 4, no Museu Brasileiro de Escultura, com o sub-titulo de In-Signo e que teve como proposta uma reflexão sobre a articulação da linguagem nas diversas áreas de conhecimento e atuação. Seu programa foi elaborado segundo um critério de contraposição de linguagens, sejam teóricas, criativas ou expressivas. Cada sessão propôs o encontro, a dialética, a conjugação entre pesquisadores, cientistas, acadêmicos e performers, artistas, intérpretes.
Em 2006, a quinta edição foi realizada também no MUBE, subtitulada In-Verso. O foco principal do simpósio foi a disseminação das linguagens digitais no meio acadêmico, artístico, científico, educacional e cultural brasileiro, abordando questões fundamentais sobre a sua emergência nas diversas áreas de conhecimento, atuação e intervenção.
A sexta edição, subtitulada Autoria e Textualidade na Era Digital, será realizada no SESC-Pinheiros de 24 de maio a 19 de junho de 2008, numa co- realização da Universidade de São Paulo e do Serviço Social do Comércio de São Paulo, contando ainda com a produção executiva do IDHC, Instituto para o Desenvolvimento de Habilidades da Comunicação. O evento foi concebido pela equipe do Colabor, um nascente Centro de Pesquisas em Linguagens Digitais, que iniciou suas atividades em 2006 e encontra-se em processo de institucionalização na USP.
Gradualmente, esta série de simpósio temáticos serão transformados em livros e sites, necessariamente diferentes de suas matrizes originais. Esta alquimia de textos em falas que retornam a textos, de falas videogravadas que retornam ao papel ou à pagina de um site, altera, processa e transforma, edita e repropõe, mas ao mesmo tempo serve a função de documentar, preservar e disseminar a informação.
Meu propósito é o de que os próximos Simpósios mantenham esta tradição, reunindo importantes pesquisadores, brasileiros e estrangeiros, mantendo e desencadeando um movimento contínuo de integração e colaboração nacional e internacional, deflagrando um intenso e ininterrupto processo de ensino, pesquisa, reflexão e produção em Arte, Comunicação e Cultura Digital, tendo como um possível núcleo a Universidade de São Paulo, e especialmente, o Programa Interunidades de Pós-graduação em Estética e Historia da Arte.